Em tempos mais estranhos que a ficção, qual o papel de uma boa história?

Em tempos mais estranhos que a ficção, qual o papel de uma boa história?

Obras como A Dança da Morte, de Stephen King, e Contágio, de Steven Soderbergh, ganham hoje peso maior que mero entretenimento – por bem ou por mal

“Sempre tem alguém me dizendo ‘Nossa, é como se estivesse dentro de uma história do Stephen King'”, lamenta o próprio escritor em recente conversa com a rádio americana NPR. “Minha única resposta nesses momentos é ‘Eu sinto muito'”.

O escritor se refere em grande parte ao recente burburinho ao redor de um de seus livros, A Dança da Morte, publicado originalmente em 1978 e que traz uma narrativa muito parecida com a nossa: um mundo envolto em crise, engatilhada pela disseminação de um vírus perigoso. Mas, com isso, Stephen também sugere os papeis às vezes estranhos que a ficção assume em momentos de crise.

Para começar, doenças são fenômenos tanto biológicos quanto culturais, e a busca por entendê-las necessariamente passa por estes dois caminhos. Para Katherine Shwetz, pesquisadora da Universidade de Toronto, ficção sobre epidemias como A Dança da Morte “refletem nossos medos mais profundos sobre o momento e explora maneiras alternativas de lidar com eles”. O que nem sempre descreve uma relação simples, nem saudável.

Em meio à disseminação da AIDS em Los Angeles e São Francisco no início dos anos 80 e preocupada com a linguagem militarista usada pela mídia e governo para retratar a doença (“Não estamos sendo invadidos. O corpo não é um campo de batalha”), a escritora e ativista Susan Sontag escreveu: “Como a astronômica dívida do Terceiro Mundo, como a superpopulação e as mazelas ecológicas (…) o Apocalipse agora é um seriado de longa duração”.

Best-seller improvável?

Quem também sentiu na pele o encontro entre ficção e realidade foi o editor Marciel Conte Jr.. Marciel foi responsável pela edição brasileira do romance sci-fi Os olhos da Escuridão, escrito em 1981 pelo autor norte-americano Dean Koontz e que criculou há algumas semanas em grupos do WhatsApp como se fosse uma espécie de material profético sobre o novo coronavírus. O que, claro, é cascata, mas não deixou de ser surpresa. “Best-sellers podem surgir dos lugares mais inusitados”, brinca Marciel, que trabalha com a Editora Citadel.

Foi a polêmica fabricada ao redor da obra de Dean Kootz, inclusive, que motivou o lançamento nacional. “Quem enviou a foto [dos trechos que circulavam nas redes] foi meu cunhado  e imediatamente colocamos todo o nosso time para buscar os direitos e pesquisar os fatos”, diz Marciel. O editor inclusive garante: outros quatro títulos do autor também estão na mira da equipe

Aposta inusitada? Talvez sim, talvez não. Mas é fato, por exemplo, que a brincadeira do Stephen King lá no começo do texto também vem acompanhada de certa prova empírica: as vendas do livro A Dança da Morte aumentaram em 25% nas oito primeiras semanas de 2020, segundo levantamento da NPR.

“Estamos todos em busca de respostas , governos, médicos , cientistas, toda a informação que possa trazer luz às nossas dúvidas são bem-vindas nos dias de hoje”, calcula Marciel Conte Jr.

O que ler, jogar e assistir

No espírito de encarar a barreira entre ficção e realidade, sugerimos aproveitar os filmes, livros, séries e game da lista abaixo. Alguns são mais próximos do real, outros mais distantes, todos dignos de seu tempo livre.

Contágio

No elenco, nomes estrelados como Marion Cotillard, Matt Damon, Laurence Fishburne, Jude Law, Gwyneth Paltrow o Kate Winslet. Na direção, Steven Soderbergh (de Traffic e Onze Homens e Um Segredo). Ainda assim, o destaque do filme não está tanto na atuação, mas na precisão científica do roteiro. A produção contou com consultoria de epidemiologistas e representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para narrar uma pandemia causada por um vírus ficcional chamado MEV-1, com letalidade na casa dos 30%.

O resultado é um suspense realista, no qual o protagonista é o contágio em si – que (spoiler), atinge e chega a matar personagens importantes da trama. Menos focado nos dramas pessoais, ele acerta ao mostrar a incapacidade de uma resposta rápida frente a um novo agente infeccioso, as ondas de fake news, o caos social e o jogo político nos bastidores de uma situação dessas – tudo isso nove anos antes da Covid-19 confirmar várias das hipóteses lançadas. Por Eduardo do Valle

The Hot Zone

Em 1989 um dos vírus mais letais já registrados foi identificado pela primeira vez em solo americano. Baseada em eventos reais, The Hot Zone é a dramatização de como o Ebola foi detectado no antigo Zaire (atual República Democrática do Congo). Detectado por americanos, claro, porque o vírus já era conhecido – embora não estudado – pela população local. Ela também descreve como, anos depois, o Ebola foi parar nos EUA, tornando-se uma ameaça à população de Washington D.C.

A minissérie da National Geographic, em 6 episódios, é um exemplo de que, ao identificar uma ameaça, é preciso agir rápido, tomar todas as medidas necessárias, independente de qualquer coisa, e ater-se à ciência. Por Lis Alexandre

Eu Sou a Lenda

Neste momento, todos nós gostaríamos de ter a imunidade que Robert Neville, personagem de Will Smith, tem no filme. Ele é um cientista que, sem saber como ou por que, tornou-se imune a um vírus que dizimou com a população de NYC. Neste pano de fundo, Robert trabalha para criar uma cura numa cidade totalmente habitada por vítimas do caos. O longa se desenrola em cima da tentativa do cientista de achar a cura do vírus. Neville conta, em certo momento, com a ajuda de sua cachorra Sam, e depois, de Anna, personagem interpretada pela brasileira Alice Braga para alcançar tal objetivo. Por Augusto M. Siqueira

Incidente em Antares (Companhia das Letras, 1971)

Não, o último romance de Érico Veríssimo não fala sobre doenças ou sobre uma pandemia. No lugar disso, lança mão de um realismo fantástico para narrar a história de sete mortos, insepultos em meio a uma greve geral que atingiu até os coveiros. De volta como fantasmas, eles deixam os caixões e voltam a circular pela cidade fictícia de Antares, no Rio Grande do Sul, reclamando seu direito de serem sepultados – e revelando, em troca, as muitas incoerências e verdades ocultas da comunidade e de seus moradores. A coisa toda é narrada em tom de farsa, embora em meio a um cenário apoiado na realidade (Getúlio Vargas é um personagem). No enredo, Veríssimo anima os mortos, sim, mas que, ainda mortos, lutam por seus direitos como tal. Em meio a tantas casualidades e relatos quase diários de falecimentos, uma história que trata do tema com leveza e humor de boa literatura, ainda que ponderando sobre a dignidade humana – em vida ou após ela. Por Eduardo do Valle

Pandemic (Galápagos Jogos)

O jogo de tabuleiros foi criado por Matt Leacock entre as epidemias de Sars (2003) e de H1N1 (2009) como um sistema colaborativo de criação de estratégias. Diferente da competição de outros games, neste os jogadores precisam atuar juntos para evitar que doenças virais se espalhem pelo tabuleiro, vencendo o jogo. Para isso, cada pessoa assume um papel diferente, como médico, cientista ou agente de viagem, tomando as melhores decisões para salvar a população. Por Gabriel Nunes

This War of Mine

Ok, este game não tem nada a ver com pandemias. Mas, ao propor um jogo de guerra no qual o jogador toma controle não de um tipo militar armado até os dentes, mas das famílias colocadas no fogo cruzado, This War of Mine pode também oferecer algumas reflexões valiosas. Presos em suas casas, tendo que se mover cuidadosamente entre ruas arrasadas por tiros de morteiros, os personagens oferecem ao gamer não só desafios estratégicos, mas dilemas morais que terminam frequentemente sem um vencedor óbvio. This War of Mine tem versões para PCs, PS4, Xbox One, Nintendo Switch e dispositivos Android e iOS. Por Leonardo Ávila

Fonte:  gq.globo.com

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